Salmo 91 — a oração da proteção
Quando o medo aperta — de noite, na doença, antes de uma viagem, por alguém que amas — há três mil anos que os crentes respondem com este salmo. Aqui tens o Salmo 91 completo, tal como se reza em Portugal, e o seu significado, verso a verso.
Tu que habitas sob a protecção do Altíssimo
e moras à sombra do Omnipotente,
diz ao Senhor: «Sois o meu refúgio e a minha cidadela;
meu Deus, em Vós confio».Ele te livrará do laço do caçador
e do flagelo maligno.
Cobrir-te-á com suas penas,
debaixo de suas asas encontrarás abrigo.
A sua fidelidade é escudo e couraça.Não temerás o pavor da noite,
nem a seta que voa de dia;
nem a epidemia que se propaga nas trevas,
nem a peste que alastra em pleno dia.Podem cair mil à tua esquerda e dez mil à tua direita,
que tu não serás atingido.
Com teus próprios olhos poderás contemplar
e ver a paga dos pecadores.Porque o Senhor é o teu refúgio,
o Altíssimo a tua fortaleza.
Nenhum mal te acontecerá,
nem a desgraça se aproximará da tua tenda,
porque Ele mandará aos seus Anjos
que te guardem em todos os teus caminhos.
Na palma das mãos te levarão,
para que não tropeces em alguma pedra.
Poderás andar sobre víboras e serpentes,
calcar aos pés o leão e o dragão.«Porque em Mim confiou, hei-de salvá-lo;
hei-de protegê-lo, pois conheceu o meu nome.
Quando Me invocar, hei-de atendê-lo,
estarei com ele na tribulação,
hei-de libertá-lo e dar-lhe glória.
Favorecê-lo-ei com longa vida
e lhe mostrarei a minha salvação».
Texto da Liturgia das Horas, tal como se reza às Completas de domingo nas paróquias portuguesas, na grafia própria dos livros litúrgicos. Nas Bíblias católicas aparece numerado como Salmo 90 (91).
O que diz o Salmo 91, verso a verso
«Tu que habitas sob a protecção do Altíssimo e moras à sombra do Omnipotente» — o salmo começa por um convite: habitar, morar. Não é uma visita rápida a Deus quando algo corre mal; é fazer d'Ele a nossa casa. Numa terra quente como a da Bíblia, a sombra não é um pormenor — é o que permite sobreviver ao meio-dia. Deus como sombra: perto, fresco, constante.
«Sois o meu refúgio e a minha cidadela; meu Deus, em Vós confio» — repara que o salmo não começa a pedir; começa a afirmar. Dizer em voz alta «em Vós confio», mesmo com a voz a tremer, já é metade da oração.
«Ele te livrará do laço do caçador e do flagelo maligno» — o laço é a armadilha que não se vê antes de cair nela: a traição, a mentira, o mal que se prepara em silêncio. Nem sequer diante do que não consegues prever estás sozinho.
«Cobrir-te-á com suas penas, debaixo de suas asas encontrarás abrigo» — a imagem mais terna de todo o salmo: Deus como ave que recolhe as crias. A força de Deus não é aqui a de uma muralha; é a de um corpo que se põe entre ti e o perigo. E o escudo tem nome: «a sua fidelidade». O que te protege não é a tua força — é Deus ser fiel.
«Não temerás o pavor da noite, nem a seta que voa de dia; nem a epidemia que se propaga nas trevas, nem a peste que alastra em pleno dia» — quatro perigos que cobrem as vinte e quatro horas: noite, dia, trevas, pleno dia. Nada fica de fora. E nota bem: o salmo não diz que os perigos deixam de existir — diz que o medo deixa de mandar em ti.
«Podem cair mil à tua esquerda e dez mil à tua direita» — mesmo no meio da catástrofe, não és um número perdido na multidão. És conhecido pelo nome, como os últimos versos vão confirmar.
«Ele mandará aos seus Anjos que te guardem em todos os teus caminhos. Na palma das mãos te levarão» — os versos mais famosos, raiz da devoção ao Anjo da Guarda. «Em todos os teus caminhos»: não apenas nos caminhos direitos, também nos dias tortos.
«Porque em Mim confiou, hei-de salvá-lo…» — no final, a voz muda: é o próprio Deus que fala. E faz sete promessas: salvar, proteger, atender, estar presente, libertar, dar glória, dar vida longa. A mais preciosa é talvez a mais discreta: «estarei com ele na tribulação». Deus não promete uma vida sem tribulação — promete que nunca a atravessas sozinho.
Quando rezar o Salmo 91
Quando tens medo e não consegues dormir. É o salmo das Completas, a última oração do dia, precisamente por causa do «não temerás o pavor da noite». Se já é tarde e a cabeça não desliga, reza-o devagar, uma linha de cada vez, e deixa que a última palavra do dia seja de Deus e não da ansiedade. Podes juntá-lo à tua oração da noite.
Perante um perigo concreto. Uma viagem, uma cirurgia, resultados médicos que tardam, uma situação de insegurança. Durante séculos, viajantes e soldados levaram este salmo consigo — não como garantia de que nada aconteceria, mas como âncora para não se perderem no medo. Muitos juntam-lhe a oração de São Miguel Arcanjo.
Na doença. É dos poucos salmos que nomeiam a epidemia e a peste — fala a língua de quem está numa enfermaria ou à espera de um diagnóstico. Rezá-lo não substitui o médico; acompanha-o, e devolve a paz que a sala de espera tira.
Por alguém que amas. Troca o «tu» pelo nome da pessoa: «Nenhum mal te acontecerá, Maria; Ele mandará aos seus Anjos que te guardem». É das formas mais antigas e mais bonitas de interceder — os pais sobre os filhos que saem de casa, os filhos sobre os pais que envelhecem.
Uma palavra honesta: o Salmo 91 não é um amuleto que se pendura — é uma confiança que se habita. A proteção que promete não é a garantia de que nada de mau acontece; é a certeza de que nada do que acontece te arranca das mãos de Deus.
A história do Salmo 91
O texto hebraico não indica autor. A tradição judaica atribui-o a Moisés, na sequência do salmo anterior, que lhe é atribuído; a antiga tradução grega atribui-o a David; muitos estudiosos falam simplesmente de um salmista anónimo do Templo de Jerusalém. Seja qual for a mão que o escreveu, reza-se há cerca de três mil anos.
É também o salmo que o diabo citou a Jesus no deserto — «mandará aos seus Anjos… na palma das mãos te levarão» (Mt 4, 6) — para o tentar a atirar-se do pináculo do Templo. Jesus respondeu que não se põe Deus à prova, e deixou-nos assim a chave de leitura do próprio salmo: é abandono confiante, não desafio.
Na Igreja, São Bento prescreveu-o todos os dias às Completas na sua Regra, no século VI — e assim chegou até nós: na Liturgia das Horas em Portugal reza-se às Completas dos domingos e solenidades, antes de dormir. É ainda o salmo responsorial do primeiro domingo da Quaresma no Ano C. Nas Bíblias católicas aparece como Salmo 90 (91), porque a numeração litúrgica segue a antiga tradução grega; é exatamente o mesmo salmo.
Perguntas frequentes sobre o Salmo 91
Para que serve o Salmo 91?
É o grande salmo da proteção: reza-se quando há medo, perigo, doença ou angústia, para renovar a confiança de que Deus guarda quem n'Ele se abriga. Não serve para forçar um resultado; serve para atravessar a dificuldade com paz. A Igreja reza-o às Completas, a última oração antes de dormir.
Porque é que nalgumas Bíblias aparece como Salmo 90?
A numeração hebraica e a numeração grega dos Salmos diferem em um número a partir do Salmo 9. As Bíblias e os livros litúrgicos católicos seguem a tradição grega e latina, e por isso escrevem «Salmo 90 (91)». É o mesmo salmo, palavra por palavra.
Quem escreveu o Salmo 91?
O texto hebraico não nomeia o autor. A tradição judaica aponta Moisés, na sequência do salmo anterior, que lhe é atribuído; a antiga tradução grega atribui-o a David; muitos estudiosos falam de um salmista anónimo do Templo. O que se sabe ao certo é que se reza há cerca de três mil anos.
É preciso rezar o Salmo 91 sete vezes?
Não. O costume de o repetir sete vezes é uma devoção popular, não uma regra, e o salmo não é uma fórmula cujo efeito dependa do número de repetições. Repetir pode ajudar a meditar, como acontece no Terço; mas vale mais um verso rezado devagar e com o coração do que sete leituras à pressa.
Posso rezar o Salmo 91 por outra pessoa?
Podes — e é das formas mais bonitas de o rezar. Põe o nome da pessoa onde o salmo diz «tu»: «Nenhum mal te acontecerá, João». Muitos pais rezam-no assim sobre os filhos, e muita gente o reza à distância por quem está doente, a viajar ou em perigo.
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