Pai Nosso — oração que Jesus ensinou, palavra por palavra
Um dia, um dos discípulos pediu a Jesus: «Senhor, ensina-nos a orar.» Ele não respondeu com uma técnica. Respondeu com palavras — estas:
Pai nosso, que estais nos céus,
santificado seja o vosso nome;
venha a nós o vosso reino;
seja feita a vossa vontade
assim na terra como no céu.O pão nosso de cada dia nos dai hoje;
perdoai-nos as nossas ofensas,
assim como nós perdoamos
a quem nos tem ofendido;
e não nos deixeis cair em tentação;
mas livrai-nos do mal.Ámen.
É esta a versão que se reza nas paróquias de Portugal, na Missa e em Fátima. Se chegaste aqui à procura do texto exato, já o tens. Se quiseres ficar mais um pouco, vale a pena: cada frase desta oração carrega mais do que parece.
De onde vem esta oração
O Pai Nosso aparece duas vezes no Evangelho. Em Mateus 6, 9-13, no coração do Sermão da Montanha, Jesus ensina-o à multidão. Em Lucas 11, 1-4, numa versão mais breve, dá-o aos discípulos que Lhe pediram que os ensinasse a rezar — provavelmente porque O viam rezar tantas vezes e queriam saber o que se passava ali.
É a oração mais antiga dos cristãos. Já no primeiro século, a Didaché — um dos escritos cristãos mais antigos fora do Novo Testamento — recomendava rezá-la três vezes por dia. Tertuliano chamou-lhe «o resumo de todo o Evangelho». Quando a rezas, não estás a dizer palavras tuas: estás a dizer as palavras que Deus quis pôr na nossa boca.
O que pede cada frase
«Pai nosso, que estais nos céus.» Jesus manda tratar Deus por Pai — em aramaico, Abba, uma palavra de casa, de filho pequeno. E diz «nosso», não «meu»: mesmo quando rezas sozinho na cozinha às onze da noite, rezas com toda a Igreja, com todos os que alguma vez disseram estas palavras.
«Santificado seja o vosso nome.» Não somos nós que tornamos o nome de Deus santo — ele já o é. Pedimos que seja reconhecido como santo: no mundo, e primeiro na nossa própria vida, na maneira como falamos e vivemos.
«Venha a nós o vosso reino.» É pedir que o mundo se pareça com aquilo que Deus sonhou para ele — justiça, paz, ternura pelos pequenos. E é aceitar que esse reino começa dentro de quem o pede.
«Seja feita a vossa vontade assim na terra como no céu.» Talvez o pedido mais difícil de dizer a sério. Não é resignação: é confiança. Jesus rezou exatamente isto no Getsémani, na noite mais escura da Sua vida — por isso podemos rezá-lo nas nossas.
«O pão nosso de cada dia nos dai hoje.» Aqui a oração desce à terra. Temos licença de pedir coisas concretas: o pão, o trabalho, a saúde, a renda ao fim do mês. E há mais neste pão: a Palavra de Deus e a Eucaristia, o alimento que sustenta por dentro. Repara no «hoje» — não pedimos reservas para o ano, pedimos o de hoje. Um dia de cada vez.
«Perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido.» É o único pedido com uma condição agarrada — e Jesus insiste nela logo a seguir (Mateus 6, 14-15). O perdão que pedimos e o perdão que damos são a mesma água: se fecho a torneira para os outros, fecho-a para mim.
«E não nos deixeis cair em tentação.» Deus não tenta ninguém. Pedimos que não nos deixe sozinhos quando a prova chegar — que nos segure antes da queda, como um pai segura um filho à beira do degrau.
«Mas livrai-nos do mal.» A oração termina a olhar o mal de frente, sem pânico. Quem começou a dizer «Pai» pode acabar a falar do Maligno sem medo: não é ele que tem a última palavra.
Porque é que Jesus a ensinou assim
Em Mateus, antes de dar o Pai Nosso, Jesus critica duas maneiras de rezar: a de quem reza para ser visto, e a de quem multiplica palavras «julgando que por muito falarem serão ouvidos». A resposta d'Ele é uma oração curta. Cabe num fôlego. Não precisa de palco nem de eloquência — precisa de verdade.
E repara na ordem dos sete pedidos: os três primeiros olham para Deus — o Teu nome, o Teu reino, a Tua vontade — e só depois vêm os quatro que olham para nós — o pão, o perdão, a tentação, o mal. A ordem já é uma escola de oração: primeiro o Pai, depois as preocupações. Não porque as nossas coisas não importem, mas porque, vistas do colo do Pai, pesam de outra maneira.
Rezar devagar ou saber de cor?
Saber o Pai Nosso de cor não é um defeito — «de cor» vem de cor, coração. O problema não é a memória; é o piloto automático: dizer as palavras a pensar na lista de compras. Jesus não condenou a repetição, condenou a repetição vã.
Um modo simples de a vencer: reza uma linha por respiração. «Pai nosso, que estais nos céus» — inspira, expira, só depois a linha seguinte. Se uma palavra te prender — «pai», «perdoai», «hoje» — fica nela; não tens de acabar a oração para ela contar. Santa Teresa de Ávila dizia que um Pai Nosso rezado assim, devagar, chega para encher uma hora inteira de oração.
E nas noites em que estás demasiado cansado para sentir seja o que for, reza-o na mesma. Há dias em que somos nós que levamos as palavras, e dias em que são as palavras que nos levam a nós. Foi também para esses dias que Jesus no-las deixou. É a oração de todas as horas: de manhã, ao deitar, na Missa antes da comunhão — e no terço, onde cada dezena começa com um Pai Nosso (se quiseres, vê como rezar o Terço, passo a passo).
Perguntas frequentes sobre o Pai Nosso
Onde está o Pai Nosso na Bíblia?
Em dois lugares: em Mateus 6, 9-13, no meio do Sermão da Montanha, e em Lucas 11, 1-4, numa versão mais breve, dada em resposta ao pedido de um discípulo. A versão que a Igreja reza segue o texto de Mateus, que tem sete pedidos.
Porque é que os católicos não dizem «vosso é o reino, o poder e a glória»?
Essa frase é uma doxologia — um louvor — acrescentada nos primeiros séculos, que não aparece nos manuscritos mais antigos do Evangelho de Mateus; por isso não faz parte do texto da oração. Mas os católicos também a dizem: na Missa, logo a seguir ao Pai Nosso, o povo responde «Vosso é o reino e o poder e a glória para sempre».
O que significa «não nos deixeis cair em tentação»?
Não significa que Deus nos tente — «Deus não tenta ninguém», diz a carta de Tiago (1, 13). Pedimos que Ele não nos deixe sozinhos na hora da prova: que nos ampare para não entrarmos pelo caminho que leva ao pecado e nos dê força quando a tentação chegar.
O «pão nosso de cada dia» é só o alimento?
É o alimento e tudo o que precisamos para viver hoje: trabalho, saúde, paz em casa. E é também, para os cristãos, a Palavra de Deus e a Eucaristia — o pão que sustenta por dentro. O «hoje» ensina a confiar um dia de cada vez.
Porque se diz «que estais nos céus» e não «que estás»?
É o vós de reverência da tradução tradicional portuguesa, herdado do latim da Igreja e rezado assim nas paróquias e em Fátima há gerações. Os cristãos evangélicos usam «tu» — «santificado seja o teu nome». O sentido é exatamente o mesmo; só muda a forma de tratamento.
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Sê dos primeiros — acalenta.com